terça-feira, 2 de setembro de 2014



[CANÇÃO]


Do jeito que se mexia, naquelas meias trançadas que Fitgerald num livro chama tantas vezes de stockings, parecia que se amava. Se amava naquele corpo, daquele jeito, dentro daquela música que tocava. Se amava por direito; sem pleito de lado algum, a despeito dos que se continham dançando num balanço de conformidade, pesado pra idade, confuso pro coração.

Nada lhe prendia a não ser as meias. O que lhe prendia, no entanto não lhe  impedia o sangue de descer pelos pés, o calor de subir pelas canelas, a música de se chocar com a percusão de dentro, de coisa viva pulsando, querendo, buscando vida e encarnação, fazendo demarcação de passo, constância de canção.


De compasso descabido, de descabelo comprido, nada que precisasse explicar a quem quer que fosse. Nada que lhe custasse a liberdade de dançar como queria, apoiar-se na estrutura que lhe mantinha em pé, empostar a fé que lhe cabia na cabeça erguida e peito aberto. Sem dúvidas, sem dívidas, sem sanções. Aberto no mundo, mas preso nas canções. Preso apenas pelo compasso teso, certeiro em continuar, em não acabar na canção indo embora quando o coro canta mais baixo. É que ser pra sempre era compromisso; como era mudar apenas um pouco. Conservar apenas o louco que cantava os coros de outrora no ouvido de agora, definindo o então.    

Ilustração: Gabriel Araújo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

[DIALÉTICA DA CORAGEM]


Às vezes me perguntam de onde vem a minha coragem pra fazer coisas que só eu invento e tento. Ora, sem cerimônia lhes digo que a coragem não vem de lugar algum. Não a sei coragem e não sabê-la pode ser tê-la. O que me move se traduz no desejo intrínseco de viver o novo. Não é privilégio da minha carne, do meu sobrenome ou do meu dna, que eu saiba.

Eu vejo o novo e sempre o vislumbro melhor que o agora. Ninguém explica esse fenômeno no meu signo que se caracteriza pelo apego ao que passou. Mas o novo que vislumbro não me faz desgarrar de minhas memórias, saudades, segredos, medos que foram porque ainda, em menor escala, em roupagens de gala, o são. Nada do que foi, se foi por completo, pode ser que só me deixou desperto, esperto pro próximo furacão.

O não-medo que atribuem à coragem tampouco existe. O medo apenas não transpõe a barreira altíssima do sonho para se instalar em algum lugar. Fica contido como medo tem que ser. Sem se anunciar nem se apagar, quieto e esperando atenção. No sonho do novo não o vejo, só o que de mim será melhor ao passar do agora para o próximo passo.

Para onde vou não sei, só sei que onde estou não fico. O mundo move e eu devo fazer o mesmo. Voltar pode ser ir para o novo. Ir pode ser ver e vencer. Não tenho muita certeza, mas vejo o que pode ser, e no que pode ser, não tenho o que perder, não tenho porque hesitar. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

[ESPERA E ESPERANÇA]


Proseio sobre a espera sem saber muito dela. Se é ela que mora no amor, ou se o amor que é parte dela. Há as que tiram o coração do peito e o põe na mão. Há as costumeiras, com as quais se coexiste sem aspirações. Mas ainda as que dóem. As que fatigam o amor e o reservam ao relento, sem saúde, sem se saber são.

Existem também as que não reconhecemos que temos. As que os outros nos informam que ali estão. Há as que demoram por natureza, as que tem mais silêncio dentro e fora. As que marejam os olhos sem permissão. Há as que trazem alegria: anseio, suor, frio e borboletas. Nem por isso menos morosas. Feitas de tempo que se pensa que perde. Feitas, na verdade, de tempo em que se procura não se pensar. Tempo preenchido com pequenas e grandes coisas, com o ir e vir e o voltar. Tempo em que se busca não olhar o mar, não ver fotos nos álbuns e não ouvir músicas que despedacem. No fim todo tempo de espera é tempo que se cede, querendo ou não. Tempo que depois se quer recobrar no encontro.

A espera é um ponto. Que liga o tenho ao quero. O agora ao incerto. O fim do ciclo ao começo de outro. Onde gira a roda viva cujo eixo é um mistério. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

[FLOR E SER]


Ser flor
É segurar a dor do parto no caule.
Ter tronco de lágrima caída
tão doída que jamais se foi.

Ser flor é também ser fruta
Truta fresca sem tempero
Cheiro e sabor
que se medra e não se entende.

É ter olhos fundos da noite
E balançar na manhã que avisa.
É boca seca:
silêncio afoito
calado na beleza.

Ser flor
tem um pouco de tristeza
Da antecipação de figurar o amor de outrem
De morar em vasos de água fria
postos no alto
de um lar alheio ao ar
e ao chão de terra.

É ter vida curta
E relevância de pétalas.
É não saber-se completa
No meio de um buquê.
É ser sem porquê
À serviço de quem
não se presta a olhar o não-belo.

Ser flor é mero
presente.
Ou mora
em memória
Ou em
jardim
Ou em cima
da gente.

Ilustração: Gabriel Araújo

domingo, 6 de julho de 2014

[AMOR DE LONGE]


Há amantes
Que na distância o são integralmente.
Sem descanso, intervalo ou distração.
Há os amantes que o são
Sem dias vãos,
sem se permitir
O despeito de não amar
- de amar menos;
amar ameno,
com pouco calor no coração.

Há amantes grandes.
Pequenos no jeito de amar no silêncio.
Olhando qualquer paisagem,
na ida e vinda da viagem
curta-metragem de personagens
sem nexo
perplexos
de existirem
na inexorabilidade da vida.

Há amantes que o são sem vergonha
cheiro de fronha
que se abraça,
mãos no regaço
sem pressa de que o tempo passe,
pedido que não se despeça
certeza de seguir no passo.

domingo, 1 de junho de 2014

[RELÂMPSO NO MEU LÉXICO]


Queria um jogo de palavras acariciadas, não jogadas. Palavrinhas cismadas, sentadas em círculo. Virtuosas, penteadas. Comportadas e contidas em não causarem intrigas. Palavras amigas. Dessas que fazem companhia. Das que cercam silenciosas, tímidas. Das que dizem o necessário, categoricamente fechando a cortina de momentos dramáticos, selando os porquês e a legitimidade das dúvidas que vão mais fundo.

Palavras humanas e por isso imperfeitas. Das que relevam uma incerteza, uma metáfora, uma ironia. Das que revelam mais que o que se diz. Das que se revisita na intenção de lapidar o discurso, nas que se volta para explicar que “não foi o que quis dizer”. Palavras mais vivas que eu, de preferência, mais inteligentes. Com coragem de serem suficientes, certas, próprias para hora, dia e lugar.

Palavras ademais mais elegantes, mais donas de si. Com menos rodeios, receios, receitas. Das que ressoam na memória; das que somem comidas pela história, virando imagens grandes, causando palpitações no peito, impedimento de ver direito, anseio. Palavras que outrora, na verdade em outra hora, velassem pelo meu sono, zelassem pelos meus passos, abrissem meus olhos e meu pensamento. Apenas para que meu dicionário e minha alma, que delas transborda, fossem riquezas.