Na
fotografia que fiz, olhava o filho. O filho solto, imponente, pequeno diante das
árvores, das montanhas longínquas, dos passantes e do batente de onde desceram
para caminhar. No papel, o filho parado. Pose de herói de mãos empunhadas. O
contemplava crescendo. A vida vendo. Nada
demais fazia além de estar no seu lugar no mundo. Desligou-se dali. Mascava um
chiclete que não lhe deixava costurar memórias e sentimentos. Do filho pro
nada. Num ponto fixo descansava o olhar e se via menino. Tudo e nada havia
mudado. Se vira o menino: Pai. Oi. Até onde vai o mar?
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
[PERDIDA EM
TRADUÇÃO]
Lembro
Ávida,
feliz e silenciosa.
Em mim a
memória
Deixou um
lugar.
Nela entro
para sonhar
Entro nela
e
em nada
mexo
olho-a
atenta se
desenrolar.
Não me
incomoda
Saber o que
vem
no próximo
milisegundo
posso vê-la
dum mundo
que já se
reinventou.
Moro nela,
metadede
mim.
Dela pego
o pólen da
sobrevivência.
Choro nela
Digo que
sim.
Nela me
permito
viver a ausência.
***
[LOST IN TRANSLATION]
I remember
Avid, blissful and silent.
In me, memory
Has set a space.
I enter it to dream
I enter it and
I leave things untouched
I see it
unravel.
It is no trouble
Knowing what comes
the next millisecond
It can be seen
from a world
that has been reinvented.
I live in it,
half of me.
From it
I get the pollen of survival.
I cry for it
I say yes
In it I allow myself
loneliness.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
[RETRATO]
Me aproprio
de uma foto
Quando a
pego no papel
Memória
fosca e quente
Impressa em
pixels
De se olhar
De lembrar
momentos
Em que fui
personagem redondo
da prosa de
minha própria vida.
Personagem
que já mudou.
Que narrou
e pausou a cinza das horas
Que esperou
sem saber o que
viria
pós-ciclos
pós-sorrisos
pós-poses.
Fui e sou
narrador-personagem
vivendo a
viagem
se
anunciando nos movimentos,
prevendo
momentos,
fingindo
tê-los
tesos entre os dedos.
Nas
fotografias
faço faces
dito frases
solto
palavras que me prendem o sorriso.
Comprimo o
peito
olho as
cores
finjo que
posso pegar o que o momento me dá
nas mãos.
Invés disso
Vivo
silencioso
a frustração de me conformar
com o tempo
num papel
fosco
quente
Impresso em
pixels
de se
olhar.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
[PORTAS RETRATOS]
Sentei no sofá da sua sala a primeira vez atônito. Incerto do que
dizer, do que fazer, de por onde começar minha entrega. Algo naquele sorriso
fez os meus segredos pularem do meu peito desgovernados, ditos,
meramente expostos: carne na mesa de operação, para que ela com eles,
fizesse o que lhe apetecesse. Podia desorganizá-los e romper suas
terminações nervosas. Suturá-los depois de lhes tirar a melhor memória
de dentro. Poderia fazer incisões gigantes neles, e deixá-los sangrar no
metal frio até que a morte os separasse de mim.
Por algum motivo me mantive sereno. Não lhe dissera que meus segredos o eram. Mas penso que ela sabia. Andava faceira de pés no chão da sua sala. A casa era o seu mundo aberto pra mim. Mundo que cheirava diferente ao abrir o portão. Mundo de lances de escada acima, na altura de quem só sonha. No chão de sua casa tão alta eu via que seus pés eram tortos, que não sentiam nunca todo o apoio que a gravidade lhe dava de presente. A respiração, a voz, os cabelos emaranhados na altura do ombro eram também presentes inimagináveis, os quais não se podia macular. Maculá-los poderia ser sabê-los, invejá-los, cobiçá-los, querê-los em outras de estatura maior, menor, mais curvas, menos covas, corcundas, mais caladas. Nada nela me inspirava medo. Tudo nela me inspirava segredo. Mais deles para compensar os que, desgovernados, me deixavam sem assunto. Quando iam ao encontro do seu imaginário, ela assentia com a cabeça, engolia o vinho, sorria um sorriso não inteiro.
Seus porta-retratos portavam momentos que não entendia. Gente de costas pra lente, de frente pro mar. Cabeças cortadas nos lados, pessoas sem foco sorrindo. Era o mundo representado na estante, sem palavras para o narrar. No nosso círculo havia os que viviam de costas pros outros imersos no seu silêncio. Os que não se importavam com o que os outros pensavam deles, os que nada viam, mas iam seguindo algo que lhes movia adiante.
- Life is what happens to you while you're busy making other plans.
- Como?
- É o que diz a música, nessa parte.
- Ah, sim... você fala do John.
- É. Talvez.
- Mas a gente vive fazendo planos enquanto vive.
- Que planos você faz agora, enquanto estamos nessa sala?
- Quero ser uma das pessoas na foto.
- Qual delas?
- A que está naquele porta-retrato, que você ainda não tem no aparador.
- Quer mais vinho?
- Sim.
- Darling, darling, darling...
- Gosto dessa música.
- Falo com você. De você.
- Você escolhe bem os vinhos e as trilhas. E sofás também.
- Talvez eu só seja boa com pequenas escolhas.
- Pequenas escolhas podem mudar uma noite. Excitar o amor. Salvar uma vida.
- Se tivéssemos a eternidade, faríamos mais ou menos planos?
- Beberíamos mais.
- Amaríamos menos.
- Erraríamos menos ou mais?
- Eu teria errado menos na sétima série.
- Eu queria ter a chance de fazer diferente.
- A sétima?
- Me dá mais vinho.
- I'm just sitting here watching the wheels go round and round.
- Estamos ficando bêbados.
- É esse disco.
- Em 2005 eu perdi alguém muito importante.
- Morreu?
- Caiu da mudança. Me atrapalhei, não arrumei direito. Não coloquei na
caixa com as coisas frágeis, nem deixei este lado virado pra cima.
- Deixar um amor escapar assim é como não poder repetir a sétima série.
- Você não sente a gravidade. Nem cabe essa comparação.
- E onde esse amor cabe?
- Nessa música, nessa sala. Na distância que meus pés não conseguem
dar conta de alcançar. Em quase dez anos daquele cheiro na minha
memória.
- Vinho?
- Sempre.
- Você faz a vida parecer uma aventura misteriosa.
- Tenho alguns arrependimentos.
- Eu tenho poucos. Diria até que quase nenhum.
- Talvez eu também devesse me concentrar nas pequenas escolhas. Mas eu
não sei nem escolher o pão que compro, enquanto a decisão de ir embora
ronda a minha cabeça.
- Eu sempre escolho pão francês.
- Me ensina a ser assim.
- Então escolhe uma música. O disco acabou.
- Coloca aquela do Daniel Johnston, que diz que o amor verdadeiro me
encontrará no fim.
- Mais vinho?
- Mais. E que essa música esteja certa.
- Um brinde a isso.
- E foda-se a eternidade.
. por Eliza Araújo e Raquel Medeiros
Por algum motivo me mantive sereno. Não lhe dissera que meus segredos o eram. Mas penso que ela sabia. Andava faceira de pés no chão da sua sala. A casa era o seu mundo aberto pra mim. Mundo que cheirava diferente ao abrir o portão. Mundo de lances de escada acima, na altura de quem só sonha. No chão de sua casa tão alta eu via que seus pés eram tortos, que não sentiam nunca todo o apoio que a gravidade lhe dava de presente. A respiração, a voz, os cabelos emaranhados na altura do ombro eram também presentes inimagináveis, os quais não se podia macular. Maculá-los poderia ser sabê-los, invejá-los, cobiçá-los, querê-los em outras de estatura maior, menor, mais curvas, menos covas, corcundas, mais caladas. Nada nela me inspirava medo. Tudo nela me inspirava segredo. Mais deles para compensar os que, desgovernados, me deixavam sem assunto. Quando iam ao encontro do seu imaginário, ela assentia com a cabeça, engolia o vinho, sorria um sorriso não inteiro.
Seus porta-retratos portavam momentos que não entendia. Gente de costas pra lente, de frente pro mar. Cabeças cortadas nos lados, pessoas sem foco sorrindo. Era o mundo representado na estante, sem palavras para o narrar. No nosso círculo havia os que viviam de costas pros outros imersos no seu silêncio. Os que não se importavam com o que os outros pensavam deles, os que nada viam, mas iam seguindo algo que lhes movia adiante.
- Life is what happens to you while you're busy making other plans.
- Como?
- É o que diz a música, nessa parte.
- Ah, sim... você fala do John.
- É. Talvez.
- Mas a gente vive fazendo planos enquanto vive.
- Que planos você faz agora, enquanto estamos nessa sala?
- Quero ser uma das pessoas na foto.
- Qual delas?
- A que está naquele porta-retrato, que você ainda não tem no aparador.
- Quer mais vinho?
- Sim.
- Darling, darling, darling...
- Gosto dessa música.
- Falo com você. De você.
- Você escolhe bem os vinhos e as trilhas. E sofás também.
- Talvez eu só seja boa com pequenas escolhas.
- Pequenas escolhas podem mudar uma noite. Excitar o amor. Salvar uma vida.
- Se tivéssemos a eternidade, faríamos mais ou menos planos?
- Beberíamos mais.
- Amaríamos menos.
- Erraríamos menos ou mais?
- Eu teria errado menos na sétima série.
- Eu queria ter a chance de fazer diferente.
- A sétima?
- Me dá mais vinho.
- I'm just sitting here watching the wheels go round and round.
- Estamos ficando bêbados.
- É esse disco.
- Em 2005 eu perdi alguém muito importante.
- Morreu?
- Caiu da mudança. Me atrapalhei, não arrumei direito. Não coloquei na
caixa com as coisas frágeis, nem deixei este lado virado pra cima.
- Deixar um amor escapar assim é como não poder repetir a sétima série.
- Você não sente a gravidade. Nem cabe essa comparação.
- E onde esse amor cabe?
- Nessa música, nessa sala. Na distância que meus pés não conseguem
dar conta de alcançar. Em quase dez anos daquele cheiro na minha
memória.
- Vinho?
- Sempre.
- Você faz a vida parecer uma aventura misteriosa.
- Tenho alguns arrependimentos.
- Eu tenho poucos. Diria até que quase nenhum.
- Talvez eu também devesse me concentrar nas pequenas escolhas. Mas eu
não sei nem escolher o pão que compro, enquanto a decisão de ir embora
ronda a minha cabeça.
- Eu sempre escolho pão francês.
- Me ensina a ser assim.
- Então escolhe uma música. O disco acabou.
- Coloca aquela do Daniel Johnston, que diz que o amor verdadeiro me
encontrará no fim.
- Mais vinho?
- Mais. E que essa música esteja certa.
- Um brinde a isso.
- E foda-se a eternidade.
. por Eliza Araújo e Raquel Medeiros
quarta-feira, 5 de novembro de 2014
[ESQUERDO PEITO]
Estar na
minha pele
é estar à
flor da pele
Prestes a sufocar
De mal ou
bem
A si ou
alguém
Sem ter bem
motivo.
É ir pelo
amor
Ou pela dor
É não ter
pra quê nem por onde
e viver
longe,
sem a
certeza do agora.
Porém certa
da demora
do que de fato
quero.
Estar na
minha carcaça
É querer se ver do avesso
Sem apreço
pelo que passou
Com pressa
de que se viva o agora
Sem drama
Sem hora
Sem cortes
secos nas cenas.
Já que não
se é sem pele,
Já que sem
pele não se pode o amor,
pelo menos
respeite minha
flor.
domingo, 12 de outubro de 2014
[PALMAS]
Mãos.
Mãos finas
que afagam.
Mãos minhas
que mães
do resto do
meu corpo.
Dóem quando
sem tato,
caem quando
não sei.
Mãos
simples que francas,
que
infantis no regaço
que
discretas no cansaço
e no calor.
Mãos que
sem amor
não tem
porquê.
Mãos irmãs
em que se
parecem
Incertas de
que se merecem.
Mãos não
presas,
mas
tesas no
que quero dizer.
Quando
dadas,
oferecidas
numa entrega,
o são em
dobro -
logo
são ímãs do
bom
onde as
palmas,
assim como
as linhas da vida,
não hesitam
em ir.domingo, 28 de setembro de 2014
[MUITO MANHÃ]
Silêncio no
mundo, palavras em mim. Soam ao pé do ouvido sem quem as diga. Vibram o
suficiente pra me levantar. As palavras me tem; no compasso delas me anuncio
nos feitos e nos não-feitos; naqueles que nesse dia precisam sair direitos,
direto da cabeça pras mãos, das mãos para o papel, do papel para o sentimento
de dever cumprido.
As palavras
que me soam de além, ou aquém, me dizem que estar inquieto é estar vivo. Acordo
e me movo. Nos livros, palavras não minhas, significadazinhas com a ajuda do
meu querer. No sofá, minha preguiça não autorizada. Na porta minha pressa, que
me bate sem que eu queira, me chamando de um lugar que é maior que eu, para o
dever. Na porta, ela presa, tesa no que ainda preciso fazer. Na cozinha, meu
apreço quente solta vapor sobre a mesa de canto. Me chama para uma exorcização
do sonho, um chacoalhado de cabeça, goles sem pensar, quase nada para ser.
Não há
muito o que narrar no silêncio que desbravo e furo com meus passos, meu sono,
minha congestão e minha confusão. Me parece hora propensa, suspensa, densa para
eu também calar em mim o que não merece quebrar este ou nenhum outro estado de
graça.
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