O mundo
mudou muito, minha filha, não sei se quero lhe contar. Melhor te pôr meias com
babados dobrados no calcanhar. Melhor te ensinar a andar pelas calçadas onde
mais gente caminha dando trezentos e sessenta repetidas vezes com o pescoço e
eventualmente o corpo. Melhor te dizer que quem acorda cedo encontra o pote de
ouro no fim do arco-íris. Te sacudo pra escola, te olho nos olhos. Te olho nos
olhos também te vendo dormir. Sonhos devagares te fazem revirar as pupilas.
Sonhos ruins te afobam e engolem seus gritos. Viver não vai ser sempre bonito,
como é bonito brincar e ficar embasbacado com a grandeza do mundo. É tanta
areia no parque, tanta gota no mar, tantas nuvens com caras de cachorro e de
gente que passam a se misturar. É oxigênio das árvores, comida que cresce do
chão, é irmão que vem na barriga, briga, zelo de antemão. Prova de amor é
pertencer. Prova de amor é procurar o seu lugar num mundo que mudou muito e
permanecer.
quinta-feira, 7 de maio de 2015
terça-feira, 31 de março de 2015
[MAR MAIOR]
Não sei o
que fazer com o meu amor ao mar. Ninguém entende como lubrifica os olhos olhar
as ondas descerem como desce a calda no sorvete. Se unirem como mãos. Se
resolverem no fim, como nada. Olho o mar e a minha paz impera. Existe sem
porquê. Sai pelos poros em inércia e luz. Pega oxigênio e maresia, solta
suspiros e poesia. Embora não me entregue ao mar ao longe, não reine sobre ele
sobre placas que me deixem em pé, não fure com os braços as ondas respirando
alternadamente do lado direito ou esquerdo, estou em bons termos com sua
existência. Caminhar com ele ao lado é quieto, ver o corte dele no horizonte é
reto. Saber ser ele longínquo, bonito e constante, como a saudade que me filtra
os chakras, é certo.
segunda-feira, 9 de março de 2015
[BÊ ÉRRE]
Estou à
bordo de um veículo que não navega. Nele embarquei, dele vou desembarcar.
Dentro dele se permite sonhar. Sonhamos eu e os outros. Democráticos no nosso
espaço, silêncio e sono. Com o barulho e o tremor vamos sentindo que vamos,
passíveis do condutor. Aqui cruzamos os braços, contamos eucalíptos, imaginamos
de onde vem os animais que se alimentam do pasto que parece infinito. Se pensa
sobre as casas no meio do nada, sobre as barracas de castanhas e laranjas. Castanhas
em pacotes, laranjas em rede. Meninos com sede que vão e vem abastecer as
prateleiras de madeira e pendurar nos pregos frutas frescas.
No
anoitecer o escuro é denso, na viração o sol é intenso. Moscas de luz, rajadas,
mosquitos de chuva, água. Sereno que desce do céu sem se ver. Há as montanhas
de perto, há as que mais parecem sombras. Background pintado de filme dos anos
30. Quase não há gente, consenso coletivo em fingir não-solidão. Pode haver
música nas orelhas, lápis e papel no colo, telefone na mão, mãos sobre a cabeça
ou atrás dela. Pés no chão ou em apoiadores. Quilômetros que vão, quilômetros
que vento. Ouvir o lado de fora não deixa ouvir o lado de dentro.
Há as
memórias que vem, que em nada dialogam com a paisagem, mas que –penso --,
precisam de paz de espírito para fazer passagem. Paz essa, da qual inclusive
disfruto para seguir viagem.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
[APORIA]
Na
fotografia que fiz, olhava o filho. O filho solto, imponente, pequeno diante das
árvores, das montanhas longínquas, dos passantes e do batente de onde desceram
para caminhar. No papel, o filho parado. Pose de herói de mãos empunhadas. O
contemplava crescendo. A vida vendo. Nada
demais fazia além de estar no seu lugar no mundo. Desligou-se dali. Mascava um
chiclete que não lhe deixava costurar memórias e sentimentos. Do filho pro
nada. Num ponto fixo descansava o olhar e se via menino. Tudo e nada havia
mudado. Se vira o menino: Pai. Oi. Até onde vai o mar?
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
[PERDIDA EM
TRADUÇÃO]
Lembro
Ávida,
feliz e silenciosa.
Em mim a
memória
Deixou um
lugar.
Nela entro
para sonhar
Entro nela
e
em nada
mexo
olho-a
atenta se
desenrolar.
Não me
incomoda
Saber o que
vem
no próximo
milisegundo
posso vê-la
dum mundo
que já se
reinventou.
Moro nela,
metadede
mim.
Dela pego
o pólen da
sobrevivência.
Choro nela
Digo que
sim.
Nela me
permito
viver a ausência.
***
[LOST IN TRANSLATION]
I remember
Avid, blissful and silent.
In me, memory
Has set a space.
I enter it to dream
I enter it and
I leave things untouched
I see it
unravel.
It is no trouble
Knowing what comes
the next millisecond
It can be seen
from a world
that has been reinvented.
I live in it,
half of me.
From it
I get the pollen of survival.
I cry for it
I say yes
In it I allow myself
loneliness.
sexta-feira, 2 de janeiro de 2015
[RETRATO]
Me aproprio
de uma foto
Quando a
pego no papel
Memória
fosca e quente
Impressa em
pixels
De se olhar
De lembrar
momentos
Em que fui
personagem redondo
da prosa de
minha própria vida.
Personagem
que já mudou.
Que narrou
e pausou a cinza das horas
Que esperou
sem saber o que
viria
pós-ciclos
pós-sorrisos
pós-poses.
Fui e sou
narrador-personagem
vivendo a
viagem
se
anunciando nos movimentos,
prevendo
momentos,
fingindo
tê-los
tesos entre os dedos.
Nas
fotografias
faço faces
dito frases
solto
palavras que me prendem o sorriso.
Comprimo o
peito
olho as
cores
finjo que
posso pegar o que o momento me dá
nas mãos.
Invés disso
Vivo
silencioso
a frustração de me conformar
com o tempo
num papel
fosco
quente
Impresso em
pixels
de se
olhar.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
[PORTAS RETRATOS]
Sentei no sofá da sua sala a primeira vez atônito. Incerto do que
dizer, do que fazer, de por onde começar minha entrega. Algo naquele sorriso
fez os meus segredos pularem do meu peito desgovernados, ditos,
meramente expostos: carne na mesa de operação, para que ela com eles,
fizesse o que lhe apetecesse. Podia desorganizá-los e romper suas
terminações nervosas. Suturá-los depois de lhes tirar a melhor memória
de dentro. Poderia fazer incisões gigantes neles, e deixá-los sangrar no
metal frio até que a morte os separasse de mim.
Por algum motivo me mantive sereno. Não lhe dissera que meus segredos o eram. Mas penso que ela sabia. Andava faceira de pés no chão da sua sala. A casa era o seu mundo aberto pra mim. Mundo que cheirava diferente ao abrir o portão. Mundo de lances de escada acima, na altura de quem só sonha. No chão de sua casa tão alta eu via que seus pés eram tortos, que não sentiam nunca todo o apoio que a gravidade lhe dava de presente. A respiração, a voz, os cabelos emaranhados na altura do ombro eram também presentes inimagináveis, os quais não se podia macular. Maculá-los poderia ser sabê-los, invejá-los, cobiçá-los, querê-los em outras de estatura maior, menor, mais curvas, menos covas, corcundas, mais caladas. Nada nela me inspirava medo. Tudo nela me inspirava segredo. Mais deles para compensar os que, desgovernados, me deixavam sem assunto. Quando iam ao encontro do seu imaginário, ela assentia com a cabeça, engolia o vinho, sorria um sorriso não inteiro.
Seus porta-retratos portavam momentos que não entendia. Gente de costas pra lente, de frente pro mar. Cabeças cortadas nos lados, pessoas sem foco sorrindo. Era o mundo representado na estante, sem palavras para o narrar. No nosso círculo havia os que viviam de costas pros outros imersos no seu silêncio. Os que não se importavam com o que os outros pensavam deles, os que nada viam, mas iam seguindo algo que lhes movia adiante.
- Life is what happens to you while you're busy making other plans.
- Como?
- É o que diz a música, nessa parte.
- Ah, sim... você fala do John.
- É. Talvez.
- Mas a gente vive fazendo planos enquanto vive.
- Que planos você faz agora, enquanto estamos nessa sala?
- Quero ser uma das pessoas na foto.
- Qual delas?
- A que está naquele porta-retrato, que você ainda não tem no aparador.
- Quer mais vinho?
- Sim.
- Darling, darling, darling...
- Gosto dessa música.
- Falo com você. De você.
- Você escolhe bem os vinhos e as trilhas. E sofás também.
- Talvez eu só seja boa com pequenas escolhas.
- Pequenas escolhas podem mudar uma noite. Excitar o amor. Salvar uma vida.
- Se tivéssemos a eternidade, faríamos mais ou menos planos?
- Beberíamos mais.
- Amaríamos menos.
- Erraríamos menos ou mais?
- Eu teria errado menos na sétima série.
- Eu queria ter a chance de fazer diferente.
- A sétima?
- Me dá mais vinho.
- I'm just sitting here watching the wheels go round and round.
- Estamos ficando bêbados.
- É esse disco.
- Em 2005 eu perdi alguém muito importante.
- Morreu?
- Caiu da mudança. Me atrapalhei, não arrumei direito. Não coloquei na
caixa com as coisas frágeis, nem deixei este lado virado pra cima.
- Deixar um amor escapar assim é como não poder repetir a sétima série.
- Você não sente a gravidade. Nem cabe essa comparação.
- E onde esse amor cabe?
- Nessa música, nessa sala. Na distância que meus pés não conseguem
dar conta de alcançar. Em quase dez anos daquele cheiro na minha
memória.
- Vinho?
- Sempre.
- Você faz a vida parecer uma aventura misteriosa.
- Tenho alguns arrependimentos.
- Eu tenho poucos. Diria até que quase nenhum.
- Talvez eu também devesse me concentrar nas pequenas escolhas. Mas eu
não sei nem escolher o pão que compro, enquanto a decisão de ir embora
ronda a minha cabeça.
- Eu sempre escolho pão francês.
- Me ensina a ser assim.
- Então escolhe uma música. O disco acabou.
- Coloca aquela do Daniel Johnston, que diz que o amor verdadeiro me
encontrará no fim.
- Mais vinho?
- Mais. E que essa música esteja certa.
- Um brinde a isso.
- E foda-se a eternidade.
. por Eliza Araújo e Raquel Medeiros
Por algum motivo me mantive sereno. Não lhe dissera que meus segredos o eram. Mas penso que ela sabia. Andava faceira de pés no chão da sua sala. A casa era o seu mundo aberto pra mim. Mundo que cheirava diferente ao abrir o portão. Mundo de lances de escada acima, na altura de quem só sonha. No chão de sua casa tão alta eu via que seus pés eram tortos, que não sentiam nunca todo o apoio que a gravidade lhe dava de presente. A respiração, a voz, os cabelos emaranhados na altura do ombro eram também presentes inimagináveis, os quais não se podia macular. Maculá-los poderia ser sabê-los, invejá-los, cobiçá-los, querê-los em outras de estatura maior, menor, mais curvas, menos covas, corcundas, mais caladas. Nada nela me inspirava medo. Tudo nela me inspirava segredo. Mais deles para compensar os que, desgovernados, me deixavam sem assunto. Quando iam ao encontro do seu imaginário, ela assentia com a cabeça, engolia o vinho, sorria um sorriso não inteiro.
Seus porta-retratos portavam momentos que não entendia. Gente de costas pra lente, de frente pro mar. Cabeças cortadas nos lados, pessoas sem foco sorrindo. Era o mundo representado na estante, sem palavras para o narrar. No nosso círculo havia os que viviam de costas pros outros imersos no seu silêncio. Os que não se importavam com o que os outros pensavam deles, os que nada viam, mas iam seguindo algo que lhes movia adiante.
- Life is what happens to you while you're busy making other plans.
- Como?
- É o que diz a música, nessa parte.
- Ah, sim... você fala do John.
- É. Talvez.
- Mas a gente vive fazendo planos enquanto vive.
- Que planos você faz agora, enquanto estamos nessa sala?
- Quero ser uma das pessoas na foto.
- Qual delas?
- A que está naquele porta-retrato, que você ainda não tem no aparador.
- Quer mais vinho?
- Sim.
- Darling, darling, darling...
- Gosto dessa música.
- Falo com você. De você.
- Você escolhe bem os vinhos e as trilhas. E sofás também.
- Talvez eu só seja boa com pequenas escolhas.
- Pequenas escolhas podem mudar uma noite. Excitar o amor. Salvar uma vida.
- Se tivéssemos a eternidade, faríamos mais ou menos planos?
- Beberíamos mais.
- Amaríamos menos.
- Erraríamos menos ou mais?
- Eu teria errado menos na sétima série.
- Eu queria ter a chance de fazer diferente.
- A sétima?
- Me dá mais vinho.
- I'm just sitting here watching the wheels go round and round.
- Estamos ficando bêbados.
- É esse disco.
- Em 2005 eu perdi alguém muito importante.
- Morreu?
- Caiu da mudança. Me atrapalhei, não arrumei direito. Não coloquei na
caixa com as coisas frágeis, nem deixei este lado virado pra cima.
- Deixar um amor escapar assim é como não poder repetir a sétima série.
- Você não sente a gravidade. Nem cabe essa comparação.
- E onde esse amor cabe?
- Nessa música, nessa sala. Na distância que meus pés não conseguem
dar conta de alcançar. Em quase dez anos daquele cheiro na minha
memória.
- Vinho?
- Sempre.
- Você faz a vida parecer uma aventura misteriosa.
- Tenho alguns arrependimentos.
- Eu tenho poucos. Diria até que quase nenhum.
- Talvez eu também devesse me concentrar nas pequenas escolhas. Mas eu
não sei nem escolher o pão que compro, enquanto a decisão de ir embora
ronda a minha cabeça.
- Eu sempre escolho pão francês.
- Me ensina a ser assim.
- Então escolhe uma música. O disco acabou.
- Coloca aquela do Daniel Johnston, que diz que o amor verdadeiro me
encontrará no fim.
- Mais vinho?
- Mais. E que essa música esteja certa.
- Um brinde a isso.
- E foda-se a eternidade.
. por Eliza Araújo e Raquel Medeiros
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