Não há
silêncio o suficiente na minha vida, mas algo me diz que estou são. Há barulhos
que se colocam no meio da minha paz e os que me movem. Há perguntas que me
perseguem, vozes que me percebem, olhares que não precisam de signos para
conectar-se com o meu. Pequenas mágicas diárias acontecem e preciso de atenção
para elas. Se apenas eu pudesse andar com uma placa que dissesse “em atenção”
para que ninguém interpelasse a minha meditação. É que medito andando, comendo
e fazendo o que me é essencial. Medito em companhia. Com músicas cujas letras
entendo e as de letras que me são apenas botões coloridos, presos na pauta
musical, envolvidas na casa de sua medida, em colcheias pausas ou pontos, para
fechar a música completa. Medito ouvindo os outros e fingindo que os ouço. Meio
que medito e medito inteiro. Às vezes me doo, às vezes algo me dói. Se não
medito, não anseio, se não anseio vivo menos. Medito pequeno, pouco para não
pirar. Leio poesia em forma de meditar. Refaço falas minhas, o que quis e não
quis dizer. No meio de um turbilhão de vida presente, não quero estar preso na
mente; vou, à esmo mesmo, viver.
quinta-feira, 13 de agosto de 2015
terça-feira, 16 de junho de 2015
[O QUE SERÁ É]
O que será
é. Mal resolvido no coração que não dá vasão ao medo. Perguntas em som de
pêndulo, dúvidas com peso de perdas. Sem saber o que é, com uma leve impressão
do que tenho nas mãos, sigo vivo. Divido sonhos com o resto da população.
Tomamos o mesmo coletivo, nos cruzamos pelas calçadas, trocamos dinheiro por
ítens básicos para a sobrevivência. No caminho pro meu destino, meu olhar
altivo se coloca do lado do olhar perdido desse que segura as barras de mãos ao
alto, rendido à rotina e à luta diária. Minhas dúvidas, penso, brilham em
letreiro na minha testa. Se aproxima quem não tem pressa, se achega quem se
identifica. Não saber não implica. Quero no no fundo, ser um pouco igual à todo
mundo. Descer, caminhar, abrir a porta do destino, fazer o caminho existir e
contar.
Quero a minha parte desta terra
imensa, de tantos donos, que segue injusta na mão de poucos. Tolo eu que me
pergunto ainda, que não durmo diante do silêncio, que não calo na boca do
alvoroço, que choro afogado na enchente. Um furo de bala rompe a noite na
fotografia do jornal de amanhã. Cachaça é pra quem tem coragem. A mim, basta um
gole. Rasgo o peito na vala funda de um amor de muitos quilômetros de memória e
distância. Rasgo a garganta com a fumaça que acortina e revela. Rasgo a página que
trata o próximo como número. Eu também, um número. RG, CPF, oito dígitos de um
telefone móvel, o vigésimo terceiro na fila do banco. Aqui, esperando chamarem
meu nome, meu peito grita o teu.
A única coisa que sei de antemão, diante
da minha confusão, é que a certeza da humanidade do mundo se figura em mãos
dadas. Amor que passa pelas extremidades dos dedos. Energia que se faz em
corpo. Corpo que se faz em espécie. Espécie que se faz em ser espírito sobre
duas pernas, vivendo o mundo terreno, se afogando em beleza, explodindo em
exaspero, marejando; mesmo sem tristeza.
Arte: Henrietta Harris
Texto: Eliza Araújo e Raquel Medeiros
quinta-feira, 7 de maio de 2015
[CRIA]
O mundo
mudou muito, minha filha, não sei se quero lhe contar. Melhor te pôr meias com
babados dobrados no calcanhar. Melhor te ensinar a andar pelas calçadas onde
mais gente caminha dando trezentos e sessenta repetidas vezes com o pescoço e
eventualmente o corpo. Melhor te dizer que quem acorda cedo encontra o pote de
ouro no fim do arco-íris. Te sacudo pra escola, te olho nos olhos. Te olho nos
olhos também te vendo dormir. Sonhos devagares te fazem revirar as pupilas.
Sonhos ruins te afobam e engolem seus gritos. Viver não vai ser sempre bonito,
como é bonito brincar e ficar embasbacado com a grandeza do mundo. É tanta
areia no parque, tanta gota no mar, tantas nuvens com caras de cachorro e de
gente que passam a se misturar. É oxigênio das árvores, comida que cresce do
chão, é irmão que vem na barriga, briga, zelo de antemão. Prova de amor é
pertencer. Prova de amor é procurar o seu lugar num mundo que mudou muito e
permanecer.
terça-feira, 31 de março de 2015
[MAR MAIOR]
Não sei o
que fazer com o meu amor ao mar. Ninguém entende como lubrifica os olhos olhar
as ondas descerem como desce a calda no sorvete. Se unirem como mãos. Se
resolverem no fim, como nada. Olho o mar e a minha paz impera. Existe sem
porquê. Sai pelos poros em inércia e luz. Pega oxigênio e maresia, solta
suspiros e poesia. Embora não me entregue ao mar ao longe, não reine sobre ele
sobre placas que me deixem em pé, não fure com os braços as ondas respirando
alternadamente do lado direito ou esquerdo, estou em bons termos com sua
existência. Caminhar com ele ao lado é quieto, ver o corte dele no horizonte é
reto. Saber ser ele longínquo, bonito e constante, como a saudade que me filtra
os chakras, é certo.
segunda-feira, 9 de março de 2015
[BÊ ÉRRE]
Estou à
bordo de um veículo que não navega. Nele embarquei, dele vou desembarcar.
Dentro dele se permite sonhar. Sonhamos eu e os outros. Democráticos no nosso
espaço, silêncio e sono. Com o barulho e o tremor vamos sentindo que vamos,
passíveis do condutor. Aqui cruzamos os braços, contamos eucalíptos, imaginamos
de onde vem os animais que se alimentam do pasto que parece infinito. Se pensa
sobre as casas no meio do nada, sobre as barracas de castanhas e laranjas. Castanhas
em pacotes, laranjas em rede. Meninos com sede que vão e vem abastecer as
prateleiras de madeira e pendurar nos pregos frutas frescas.
No
anoitecer o escuro é denso, na viração o sol é intenso. Moscas de luz, rajadas,
mosquitos de chuva, água. Sereno que desce do céu sem se ver. Há as montanhas
de perto, há as que mais parecem sombras. Background pintado de filme dos anos
30. Quase não há gente, consenso coletivo em fingir não-solidão. Pode haver
música nas orelhas, lápis e papel no colo, telefone na mão, mãos sobre a cabeça
ou atrás dela. Pés no chão ou em apoiadores. Quilômetros que vão, quilômetros
que vento. Ouvir o lado de fora não deixa ouvir o lado de dentro.
Há as
memórias que vem, que em nada dialogam com a paisagem, mas que –penso --,
precisam de paz de espírito para fazer passagem. Paz essa, da qual inclusive
disfruto para seguir viagem.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
[APORIA]
Na
fotografia que fiz, olhava o filho. O filho solto, imponente, pequeno diante das
árvores, das montanhas longínquas, dos passantes e do batente de onde desceram
para caminhar. No papel, o filho parado. Pose de herói de mãos empunhadas. O
contemplava crescendo. A vida vendo. Nada
demais fazia além de estar no seu lugar no mundo. Desligou-se dali. Mascava um
chiclete que não lhe deixava costurar memórias e sentimentos. Do filho pro
nada. Num ponto fixo descansava o olhar e se via menino. Tudo e nada havia
mudado. Se vira o menino: Pai. Oi. Até onde vai o mar?
quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015
[PERDIDA EM
TRADUÇÃO]
Lembro
Ávida,
feliz e silenciosa.
Em mim a
memória
Deixou um
lugar.
Nela entro
para sonhar
Entro nela
e
em nada
mexo
olho-a
atenta se
desenrolar.
Não me
incomoda
Saber o que
vem
no próximo
milisegundo
posso vê-la
dum mundo
que já se
reinventou.
Moro nela,
metadede
mim.
Dela pego
o pólen da
sobrevivência.
Choro nela
Digo que
sim.
Nela me
permito
viver a ausência.
***
[LOST IN TRANSLATION]
I remember
Avid, blissful and silent.
In me, memory
Has set a space.
I enter it to dream
I enter it and
I leave things untouched
I see it
unravel.
It is no trouble
Knowing what comes
the next millisecond
It can be seen
from a world
that has been reinvented.
I live in it,
half of me.
From it
I get the pollen of survival.
I cry for it
I say yes
In it I allow myself
loneliness.
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