domingo, 10 de setembro de 2017

[NÃO TER A VERGONHA DE SER]



Não sei o nome do meu anjo, mas sei que ela existe. E é mulher. Pra mim é meio que espelho, nem feio nem bonito, apenas podendo refletir tudo o que eu sou e do que me aproprio. Meu anjo incansávelmente trabalha. Muito frequentemente me diz em palavras mais angelicais que as minhas que “poderia ser pior”. É tão estranho estar na cozinha batendo ovos para o omelete e escutar de repente meu anjo me dizendo isso, palavras que chocam de frente com meus pensamentos – longe das chamas do fogão. É um embate que chega a ser injusto, porque minha indecisão, tristeza, dúvida, cansaço nunca tem chance de ganhar. Sentimento que fica estatelado ali no peito, com cara de pouco, com cara de bobo, com cara de que não merece atenção. Então eu sigo pensando em coisas melhores, lembrando de dias mais lindos, lendo coisas que me elevam a consciência, vendo o mundo através. Mas o mau agouro não me deixa um dia. E sempre vem bater ali, no mesmo lugar, fazendo cansar, às vezes chorar, mas nunca preparado pra o que diz o meu anjo. Pra o que nele faz de mim, um eu de músculos, carne, osso e pele, poderoso em si, sem nem saber a quem deve a graça de ser feliz.


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Ilustração: Maya Shleifer

quarta-feira, 13 de abril de 2016

[BIBLIOTECA]


Montes de seres em silêncio abstraindo o mundo lá fora para se concentrar em letras. Silêncio que acalma o ser. Silêncio que sequer sabe que está posto. Regrado em papéis A4. Pendurado em colunas sustentadoras do edifício. Aqui se vem para ser invisível; para se curvar ao texto com a corcunda leveza de não ser visto. Aqui vários mundos coexistem. Mundos com traças, mundos justapostos com códigos em etiquetas descolantes, mundos ideologicamente conflitantes e os que arrastam os chinelos quando andam errantes. Do meu mundo, nesse momento, só eu participo.


Leio sobre o século XVIII, e me imagino nele, mais perdido que agora e condiciono minha volta à realidade para que não estar nela não me afete tanto o juízo. Meu suspiro de retorno à superfície sequer se percebe. Atuo num filme de cinema mudo, planos contínuos de câmera subjetiva. Mais tarde, não sei quando, editarei as cenas merecedoras de memória. As sequências virão sem resposta, mas também sem questões. Na mesa onde supostos pratos limpos se põe, haverão livros. Vidas passadas impressas em letras pretas no papel branco ou pardo. Café já não tão quente descendo amargo. Dúvidas que não desgrudam do pensamento ou do palato. Para todos os fins, mais linhas. Para todas as verdades só minhas, pratos.


Arte: Kristjan Dekleva

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

[SER OUTREM]



Chorei com a música como se lembrasse dela, como se nela estivesse impresso o drama de um momento sobre o qual nem devesse discorrer. Meu soluço quase silencioso, não sei se era de calafrio ou de horror. Chorar daquele jeito me transportava pra outra época, em que tinha praticamente outra pele. Outro dia vira na tevê como a cobra troca de pele. Que coisa horrível é ser o espectador da transição. Uma coisa horrível mesmo com a distância e proteção da tela e da dublagem sobreposta à fala do especialista. Mas de fato, dela, da troca de pele, eu havia passado. A couraça que me fazia sentir maior já tinha evaporado no tempo, a que me impunha como modelo, já caíra em farelos pelo caminho, aquela que vesti quando tinha certeza de todo o meu futuro já caíra em suor. Naquela ocasião corrida, sem olhadelas pra trás, água do corpo vertera, quase não querendo abandonar o sistema.

Mas o fato é que chorei. Água dos olhos vertia. Água me despia na frente dos outros convidados já quase me trocando de novo de pele. Escondi meu rosto emocionado sem saber que me curvava e me contorcia em medo. Não queria ouvir o momento mais orquestrado da música ali exposta, vertendo água salgada dos olhos, como se tivesse uma estaca no peito. Respirei tão fundo que tossi com a confusão de verter água e inalar. Desculpa perfeita para ir buscar um copo d’água. Levantei cambaleante e tropecei no pé do fumante. Errante, busquei um copo americano. Na água que repus, o alívio. Na mente a dúvida de porque chorei. No corpo a dívida, com a pele que não mais habito. 

quinta-feira, 13 de agosto de 2015

[(PRE)TENSO]



Não há silêncio o suficiente na minha vida, mas algo me diz que estou são. Há barulhos que se colocam no meio da minha paz e os que me movem. Há perguntas que me perseguem, vozes que me percebem, olhares que não precisam de signos para conectar-se com o meu. Pequenas mágicas diárias acontecem e preciso de atenção para elas. Se apenas eu pudesse andar com uma placa que dissesse “em atenção” para que ninguém interpelasse a minha meditação. É que medito andando, comendo e fazendo o que me é essencial. Medito em companhia. Com músicas cujas letras entendo e as de letras que me são apenas botões coloridos, presos na pauta musical, envolvidas na casa de sua medida, em colcheias pausas ou pontos, para fechar a música completa. Medito ouvindo os outros e fingindo que os ouço. Meio que medito e medito inteiro. Às vezes me doo, às vezes algo me dói. Se não medito, não anseio, se não anseio vivo menos. Medito pequeno, pouco para não pirar. Leio poesia em forma de meditar. Refaço falas minhas, o que quis e não quis dizer. No meio de um turbilhão de vida presente, não quero estar preso na mente; vou, à esmo mesmo, viver. 

Foto: Barbara Lanz

terça-feira, 16 de junho de 2015

[O QUE SERÁ É]


O que será é. Mal resolvido no coração que não dá vasão ao medo. Perguntas em som de pêndulo, dúvidas com peso de perdas. Sem saber o que é, com uma leve impressão do que tenho nas mãos, sigo vivo. Divido sonhos com o resto da população. Tomamos o mesmo coletivo, nos cruzamos pelas calçadas, trocamos dinheiro por ítens básicos para a sobrevivência. No caminho pro meu destino, meu olhar altivo se coloca do lado do olhar perdido desse que segura as barras de mãos ao alto, rendido à rotina e à luta diária. Minhas dúvidas, penso, brilham em letreiro na minha testa. Se aproxima quem não tem pressa, se achega quem se identifica. Não saber não implica. Quero no no fundo, ser um pouco igual à todo mundo. Descer, caminhar, abrir a porta do destino, fazer o caminho existir e contar.

Quero a minha parte desta terra imensa, de tantos donos, que segue injusta na mão de poucos. Tolo eu que me pergunto ainda, que não durmo diante do silêncio, que não calo na boca do alvoroço, que choro afogado na enchente.  Um furo de bala rompe a noite na fotografia do jornal de amanhã. Cachaça é pra quem tem coragem. A mim, basta um gole. Rasgo o peito na vala funda de um amor de muitos quilômetros de memória e distância. Rasgo a garganta com a fumaça que acortina e revela. Rasgo a página que trata o próximo como número. Eu também, um número. RG, CPF, oito dígitos de um telefone móvel, o vigésimo terceiro na fila do banco. Aqui, esperando chamarem meu nome, meu peito grita o teu.

A única coisa que sei de antemão, diante da minha confusão, é que a certeza da humanidade do mundo se figura em mãos dadas. Amor que passa pelas extremidades dos dedos. Energia que se faz em corpo. Corpo que se faz em espécie. Espécie que se faz em ser espírito sobre duas pernas, vivendo o mundo terreno, se afogando em beleza, explodindo em exaspero, marejando; mesmo sem tristeza.


Arte: Henrietta Harris
Texto: Eliza Araújo e Raquel Medeiros

quinta-feira, 7 de maio de 2015

[CRIA]


O mundo mudou muito, minha filha, não sei se quero lhe contar. Melhor te pôr meias com babados dobrados no calcanhar. Melhor te ensinar a andar pelas calçadas onde mais gente caminha dando trezentos e sessenta repetidas vezes com o pescoço e eventualmente o corpo. Melhor te dizer que quem acorda cedo encontra o pote de ouro no fim do arco-íris. Te sacudo pra escola, te olho nos olhos. Te olho nos olhos também te vendo dormir. Sonhos devagares te fazem revirar as pupilas. Sonhos ruins te afobam e engolem seus gritos. Viver não vai ser sempre bonito, como é bonito brincar e ficar embasbacado com a grandeza do mundo. É tanta areia no parque, tanta gota no mar, tantas nuvens com caras de cachorro e de gente que passam a se misturar. É oxigênio das árvores, comida que cresce do chão, é irmão que vem na barriga, briga, zelo de antemão. Prova de amor é pertencer. Prova de amor é procurar o seu lugar num mundo que mudou muito e permanecer. 

terça-feira, 31 de março de 2015

[MAR MAIOR]


Não sei o que fazer com o meu amor ao mar. Ninguém entende como lubrifica os olhos olhar as ondas descerem como desce a calda no sorvete. Se unirem como mãos. Se resolverem no fim, como nada. Olho o mar e a minha paz impera. Existe sem porquê. Sai pelos poros em inércia e luz. Pega oxigênio e maresia, solta suspiros e poesia. Embora não me entregue ao mar ao longe, não reine sobre ele sobre placas que me deixem em pé, não fure com os braços as ondas respirando alternadamente do lado direito ou esquerdo, estou em bons termos com sua existência. Caminhar com ele ao lado é quieto, ver o corte dele no horizonte é reto. Saber ser ele longínquo, bonito e constante, como a saudade que me filtra os chakras, é certo. 

segunda-feira, 9 de março de 2015

[BÊ ÉRRE]


Estou à bordo de um veículo que não navega. Nele embarquei, dele vou desembarcar. Dentro dele se permite sonhar. Sonhamos eu e os outros. Democráticos no nosso espaço, silêncio e sono. Com o barulho e o tremor vamos sentindo que vamos, passíveis do condutor. Aqui cruzamos os braços, contamos eucalíptos, imaginamos de onde vem os animais que se alimentam do pasto que parece infinito. Se pensa sobre as casas no meio do nada, sobre as barracas de castanhas e laranjas. Castanhas em pacotes, laranjas em rede. Meninos com sede que vão e vem abastecer as prateleiras de madeira e pendurar nos pregos frutas frescas.

No anoitecer o escuro é denso, na viração o sol é intenso. Moscas de luz, rajadas, mosquitos de chuva, água. Sereno que desce do céu sem se ver. Há as montanhas de perto, há as que mais parecem sombras. Background pintado de filme dos anos 30. Quase não há gente, consenso coletivo em fingir não-solidão. Pode haver música nas orelhas, lápis e papel no colo, telefone na mão, mãos sobre a cabeça ou atrás dela. Pés no chão ou em apoiadores. Quilômetros que vão, quilômetros que vento. Ouvir o lado de fora não deixa ouvir o lado de dentro.

Há as memórias que vem, que em nada dialogam com a paisagem, mas que –penso --, precisam de paz de espírito para fazer passagem. Paz essa, da qual inclusive disfruto para seguir viagem.


Foto: Lesley Dodson

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

[APORIA]


Na fotografia que fiz, olhava o filho. O filho solto, imponente, pequeno diante das árvores, das montanhas longínquas, dos passantes e do batente de onde desceram para caminhar. No papel, o filho parado. Pose de herói de mãos empunhadas. O contemplava crescendo.  A vida vendo. Nada demais fazia além de estar no seu lugar no mundo. Desligou-se dali. Mascava um chiclete que não lhe deixava costurar memórias e sentimentos. Do filho pro nada. Num ponto fixo descansava o olhar e se via menino. Tudo e nada havia mudado. Se vira o menino: Pai. Oi. Até onde vai o mar?

Foto: Bárbara Marques

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015



[PERDIDA EM TRADUÇÃO]                                                                                          

Lembro
Ávida, feliz e silenciosa.
Em mim a memória
Deixou um lugar.
Nela entro para sonhar
Entro nela e
em nada mexo
olho-a atenta se
desenrolar.
Não me incomoda
Saber o que vem
no próximo milisegundo
posso vê-la
dum mundo
que já se reinventou.
Moro nela,
metadede mim.
Dela pego
o pólen da sobrevivência.
Choro nela
Digo que sim.
Nela me permito
viver a ausência.

***

[LOST IN TRANSLATION]

I remember
Avid, blissful and silent.
In me, memory
Has set a space.
I enter it to dream
I enter it and
I leave things untouched
I see it
unravel.
It is no trouble
Knowing what comes
the next millisecond
It can be seen
from a world
that has been reinvented.
I live in it,
half of me.
From it
I get the pollen of survival.
I cry for it
I say yes
In it I allow myself
loneliness.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

[RETRATO]



Me aproprio de uma foto
Quando a pego no papel
Memória fosca e quente
Impressa em pixels
De se olhar
De lembrar momentos
Em que fui personagem redondo
da prosa de minha própria vida.
Personagem que já mudou.
Que narrou e pausou a cinza das horas
Que esperou sem saber o que
viria pós-ciclos
pós-sorrisos
pós-poses.

Fui e sou
narrador-personagem
vivendo a viagem
se anunciando nos movimentos,
prevendo momentos,
fingindo tê-los 
tesos entre os dedos.

Nas fotografias 
faço faces
dito frases
solto palavras que me prendem o sorriso.

Comprimo o peito
olho as cores
finjo que posso pegar o que o momento me dá
nas mãos.

Invés disso
Vivo silencioso
 a frustração de me conformar
com o tempo num papel
fosco
quente
Impresso em pixels
de se olhar.



Foto: Bárbara Marques, em Sutro Baths, San Francisco.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

[PORTAS RETRATOS]


Sentei no sofá da sua sala a primeira vez atônito. Incerto do que dizer, do que fazer, de por onde começar minha entrega. Algo naquele sorriso fez os meus segredos pularem do meu peito desgovernados, ditos, meramente expostos: carne na mesa de operação, para que ela com eles, fizesse o que lhe apetecesse. Podia desorganizá-los e romper suas terminações nervosas. Suturá-los depois de lhes tirar a melhor memória de dentro. Poderia fazer incisões gigantes neles, e deixá-los sangrar no metal frio até que a morte os separasse de mim.

Por algum motivo me mantive sereno. Não lhe dissera que meus segredos o eram. Mas penso que ela sabia. Andava faceira de pés no chão da sua sala. A casa era o seu mundo aberto pra mim. Mundo que cheirava
diferente ao abrir o portão. Mundo de lances de escada acima, na altura de quem só sonha. No chão de sua casa tão alta eu via que seus pés eram tortos, que não sentiam nunca todo o apoio que a gravidade lhe dava de presente. A respiração, a voz, os cabelos emaranhados na altura do ombro eram também presentes inimagináveis, os quais não se podia macular. Maculá-los poderia ser sabê-los, invejá-los, cobiçá-los, querê-los em outras de estatura maior, menor, mais curvas, menos covas, corcundas, mais caladas. Nada nela me inspirava medo. Tudo nela me inspirava segredo. Mais deles para compensar os que, desgovernados, me deixavam sem assunto. Quando iam ao encontro do seu imaginário, ela assentia com a cabeça, engolia o vinho, sorria um sorriso não inteiro.

Seus porta-retratos portavam momentos que não entendia. Gente de costas pra lente, de frente pro mar. Cabeças cortadas nos lados, pessoas sem foco sorrindo. Era o mundo representado na estante, sem palavras para o narrar. No nosso círculo havia os que viviam de costas pros outros imersos no seu silêncio. Os que não se importavam com o que os outros pensavam deles, os que nada viam, mas iam seguindo algo que lhes movia adiante.


- Life is what happens to you while you're busy making other plans.
- Como?
- É o que diz a música, nessa parte.
- Ah, sim... você fala do John.
- É. Talvez.
- Mas a gente vive fazendo planos enquanto vive.
- Que planos você faz agora, enquanto estamos nessa sala?
- Quero ser uma das pessoas na foto.
- Qual delas?
- A que está naquele porta-retrato, que você ainda não tem no aparador.
- Quer mais vinho?
- Sim.
- Darling, darling, darling...
- Gosto dessa música.
- Falo com você. De você.
- Você escolhe bem os vinhos e as trilhas. E sofás também.
- Talvez eu só seja boa com pequenas escolhas.
- Pequenas escolhas podem mudar uma noite. Excitar o amor. Salvar uma vida.
- Se tivéssemos a eternidade, faríamos mais ou menos planos?
- Beberíamos mais.
- Amaríamos menos.
- Erraríamos menos ou mais?
- Eu teria errado menos na sétima série.
- Eu queria ter a chance de fazer diferente.
- A sétima?
- Me dá mais vinho.
- I'm just sitting here watching the wheels go round and round.
- Estamos ficando bêbados.
- É esse disco.
- Em 2005 eu perdi alguém muito importante.
- Morreu?
- Caiu da mudança. Me atrapalhei, não arrumei direito. Não coloquei na
caixa com as coisas frágeis, nem deixei este lado virado pra cima.
- Deixar um amor escapar assim é como não poder repetir a sétima série.
- Você não sente a gravidade. Nem cabe essa comparação.
- E onde esse amor cabe?
- Nessa música, nessa sala. Na distância que meus pés não conseguem
dar conta de alcançar. Em quase dez anos daquele cheiro na minha
memória.
- Vinho?
- Sempre.
- Você faz a vida parecer uma aventura misteriosa.
- Tenho alguns arrependimentos.
- Eu tenho poucos. Diria até que quase nenhum.
- Talvez eu também devesse me concentrar nas pequenas escolhas. Mas eu
não sei nem escolher o pão que compro, enquanto a decisão de ir embora
ronda a minha cabeça.
- Eu sempre escolho pão francês.
- Me ensina a ser assim.
- Então escolhe uma música. O disco acabou.
- Coloca aquela do Daniel Johnston, que diz que o amor verdadeiro me
encontrará no fim.
- Mais vinho?
- Mais. E que essa música esteja certa.
- Um brinde a isso.
- E foda-se a eternidade.



. por Eliza Araújo e Raquel Medeiros

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

[ESQUERDO PEITO]

Estar na minha pele
é estar à flor da pele
Prestes a sufocar
De mal ou bem
A si ou alguém
Sem ter bem motivo.

É ir pelo amor
Ou pela dor
É não ter pra quê nem por onde
e viver longe,
sem a certeza do agora.
Porém certa
da demora
do que de fato quero.

Estar na minha carcaça
É querer se ver do avesso
Sem apreço pelo que passou
Com pressa de que se viva o agora
Sem drama
Sem hora
Sem cortes secos nas cenas.
Já que não se é sem pele,
Já que sem pele não se pode o amor,
pelo menos
respeite minha flor.

domingo, 12 de outubro de 2014

[PALMAS]


Mãos.
Mãos finas que afagam.
Mãos minhas
que mães
do resto do meu corpo.
Dóem quando sem tato,
caem quando não sei.
Mãos simples que francas,
que infantis no regaço
que discretas no cansaço
e no calor.
Mãos que sem amor
não tem porquê.

Mãos irmãs
em que se parecem
Incertas de que se merecem.
Mãos não presas,
mas
tesas no que quero dizer.
Quando dadas,
oferecidas numa entrega,
o são em dobro -
logo
são ímãs do bom
onde as palmas,
assim como as linhas da vida,
não hesitam em ir.


Foto: Maria Hill

domingo, 28 de setembro de 2014

[MUITO MANHÃ]


Silêncio no mundo, palavras em mim. Soam ao pé do ouvido sem quem as diga. Vibram o suficiente pra me levantar. As palavras me tem; no compasso delas me anuncio nos feitos e nos não-feitos; naqueles que nesse dia precisam sair direitos, direto da cabeça pras mãos, das mãos para o papel, do papel para o sentimento de dever cumprido.

As palavras que me soam de além, ou aquém, me dizem que estar inquieto é estar vivo. Acordo e me movo. Nos livros, palavras não minhas, significadazinhas com a ajuda do meu querer. No sofá, minha preguiça não autorizada. Na porta minha pressa, que me bate sem que eu queira, me chamando de um lugar que é maior que eu, para o dever. Na porta, ela presa, tesa no que ainda preciso fazer. Na cozinha, meu apreço quente solta vapor sobre a mesa de canto. Me chama para uma exorcização do sonho, um chacoalhado de cabeça, goles sem pensar, quase nada para ser.

Não há muito o que narrar no silêncio que desbravo e furo com meus passos, meu sono, minha congestão e minha confusão. Me parece hora propensa, suspensa, densa para eu também calar em mim o que não merece quebrar este ou nenhum outro estado de graça. 

terça-feira, 2 de setembro de 2014



[CANÇÃO]


Do jeito que se mexia, naquelas meias trançadas que Fitgerald num livro chama tantas vezes de stockings, parecia que se amava. Se amava naquele corpo, daquele jeito, dentro daquela música que tocava. Se amava por direito; sem pleito de lado algum, a despeito dos que se continham dançando num balanço de conformidade, pesado pra idade, confuso pro coração.

Nada lhe prendia a não ser as meias. O que lhe prendia, no entanto não lhe  impedia o sangue de descer pelos pés, o calor de subir pelas canelas, a música de se chocar com a percusão de dentro, de coisa viva pulsando, querendo, buscando vida e encarnação, fazendo demarcação de passo, constância de canção.


De compasso descabido, de descabelo comprido, nada que precisasse explicar a quem quer que fosse. Nada que lhe custasse a liberdade de dançar como queria, apoiar-se na estrutura que lhe mantinha em pé, empostar a fé que lhe cabia na cabeça erguida e peito aberto. Sem dúvidas, sem dívidas, sem sanções. Aberto no mundo, mas preso nas canções. Preso apenas pelo compasso teso, certeiro em continuar, em não acabar na canção indo embora quando o coro canta mais baixo. É que ser pra sempre era compromisso; como era mudar apenas um pouco. Conservar apenas o louco que cantava os coros de outrora no ouvido de agora, definindo o então.    

Ilustração: Gabriel Araújo

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

[DIALÉTICA DA CORAGEM]


Às vezes me perguntam de onde vem a minha coragem pra fazer coisas que só eu invento e tento. Ora, sem cerimônia lhes digo que a coragem não vem de lugar algum. Não a sei coragem e não sabê-la pode ser tê-la. O que me move se traduz no desejo intrínseco de viver o novo. Não é privilégio da minha carne, do meu sobrenome ou do meu dna, que eu saiba.

Eu vejo o novo e sempre o vislumbro melhor que o agora. Ninguém explica esse fenômeno no meu signo que se caracteriza pelo apego ao que passou. Mas o novo que vislumbro não me faz desgarrar de minhas memórias, saudades, segredos, medos que foram porque ainda, em menor escala, em roupagens de gala, o são. Nada do que foi, se foi por completo, pode ser que só me deixou desperto, esperto pro próximo furacão.

O não-medo que atribuem à coragem tampouco existe. O medo apenas não transpõe a barreira altíssima do sonho para se instalar em algum lugar. Fica contido como medo tem que ser. Sem se anunciar nem se apagar, quieto e esperando atenção. No sonho do novo não o vejo, só o que de mim será melhor ao passar do agora para o próximo passo.

Para onde vou não sei, só sei que onde estou não fico. O mundo move e eu devo fazer o mesmo. Voltar pode ser ir para o novo. Ir pode ser ver e vencer. Não tenho muita certeza, mas vejo o que pode ser, e no que pode ser, não tenho o que perder, não tenho porque hesitar. 

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

[ESPERA E ESPERANÇA]


Proseio sobre a espera sem saber muito dela. Se é ela que mora no amor, ou se o amor que é parte dela. Há as que tiram o coração do peito e o põe na mão. Há as costumeiras, com as quais se coexiste sem aspirações. Mas ainda as que dóem. As que fatigam o amor e o reservam ao relento, sem saúde, sem se saber são.

Existem também as que não reconhecemos que temos. As que os outros nos informam que ali estão. Há as que demoram por natureza, as que tem mais silêncio dentro e fora. As que marejam os olhos sem permissão. Há as que trazem alegria: anseio, suor, frio e borboletas. Nem por isso menos morosas. Feitas de tempo que se pensa que perde. Feitas, na verdade, de tempo em que se procura não se pensar. Tempo preenchido com pequenas e grandes coisas, com o ir e vir e o voltar. Tempo em que se busca não olhar o mar, não ver fotos nos álbuns e não ouvir músicas que despedacem. No fim todo tempo de espera é tempo que se cede, querendo ou não. Tempo que depois se quer recobrar no encontro.

A espera é um ponto. Que liga o tenho ao quero. O agora ao incerto. O fim do ciclo ao começo de outro. Onde gira a roda viva cujo eixo é um mistério. 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

[FLOR E SER]


Ser flor
É segurar a dor do parto no caule.
Ter tronco de lágrima caída
tão doída que jamais se foi.

Ser flor é também ser fruta
Truta fresca sem tempero
Cheiro e sabor
que se medra e não se entende.

É ter olhos fundos da noite
E balançar na manhã que avisa.
É boca seca:
silêncio afoito
calado na beleza.

Ser flor
tem um pouco de tristeza
Da antecipação de figurar o amor de outrem
De morar em vasos de água fria
postos no alto
de um lar alheio ao ar
e ao chão de terra.

É ter vida curta
E relevância de pétalas.
É não saber-se completa
No meio de um buquê.
É ser sem porquê
À serviço de quem
não se presta a olhar o não-belo.

Ser flor é mero
presente.
Ou mora
em memória
Ou em
jardim
Ou em cima
da gente.

Ilustração: Gabriel Araújo